Justiça ou perdão?

Que estamos num mundo cheio de injustiças é quase dizer o óbvio. O grande risco é, à vista disso, esfriar-se na alma de muitos a vontade de perdoar. Especialmente quando esses atos se voltam contra nós.

As palavras a seguir, de autoria do Monsenhor João Clá Dias, EP, fundador e Superior dos Arautos do Evangelho, pode ser de utilidade para muitos de nossos visitantes.

Cristo nos ensina a perdoar

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

O Evangelho nos convida à imitação de Cristo: devemos ser bons como Ele é bom, compassivos como Ele é compassivo, clementes como Ele é clemente. “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

Para melhor compreender o alcance destas palavras, devemos ter bem presente o quanto o ódio, o desejo de vingança e a incapacidade de perdoar grassavam nas civilizações anteriores à vinda de Jesus.

O conceito de justiça vigente no Oriente bíblico fundava-se na Lei de Talião, segundo a qual o criminoso devia ser punido com rigorosa reciprocidade em relação ao dano infligido: “Olho por olho, dente por dente” — tal o crime, tal a pena. Vigendo o costume de fazer justiça pelas próprias mãos, prevalecia sempre o mais forte e o perdão era visto como sinal de fraqueza.

Nosso Senhor veio substituir a pena de talião por uma nova forma de trato: amaro próximo como a si mesmo, por amor a Deus. Para justificar a disposição de perdoar sempre, esse Mestre rigoroso no combate ao pecado nos pede um arrependimento sincero de nossas faltas.

Diante de um filho que pede perdão Deus manifesta a sua bondade sem limites e nos trata com uma misericórdia infinitamente maior do que ousaríamos esperar. Para fazê-lo, põe-nos apenas uma condição: “um coração contrito e humilhado” (Sl 50, 19).

O amor-próprio ferido leva ao desejo de vingança

Entretanto, mesmo tendo sido tantas vezes objeto da misericórdia divina, não é raro ficarmos com o amor-próprio ferido quando alguém nos faz uma ofensa, e, irritados, acalentamos o desejo de revidar.

Com frequência as pessoas perdoam formalmente, “da boca para fora”, mas guardam a mágoa e o rancor na alma e, com eles, o anseio de uma revanche. “Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros?” (Tg 4, 1), pergunta o Apóstolo São Tiago.

Como a tendência exacerbada ao amor-próprio é consequência do pecado original, terá o homem sempre esse combate diante de si, cabendo-lhe recorrer à graça divina para vencer essa má inclinação.

Deus é clemente, mas também justo. Entretanto, o Divino Mestre não veio pregar a impunidade nem o laxismo moral. Deus é clemente, mas também justo. E, em face de benefícios gratuitos de tal monta, devemos ter presente que em certo momento teremos que prestar contas ao Benfeitor. Porque, como ensina Santo Afonso de Ligório, “a misericórdia foi prometida a quem teme a Deus e não a quem dela abusa […] se Deus espera com paciência, não espera sempre”(1).

A justiça e o perdão devem andar juntos. Justiça não é vingança cega, mas reparação da ordem moral violada. Essa é a regra que Nosso Senhor veio estabelecer entre os homens.

A falta de reciprocidade afasta o perdão de Deus/

Nosso Senhor é muito claro ao sublinhar a necessidade de perdoar “de todo coração” (Mt 18, 35) ao próximo, e não apenas formalmente. É preciso, portanto, eliminar do nosso espírito a amargura pela ofensa recebida, fruto do amor-próprio.

“Guardando rancor — afirma o Crisóstomo — cravamos em nós mesmos a espada. Porque, o que é aquilo que pode ter feito teu ofensor, comparado com o que fazes a ti mesmo quando te enches de ira e atrais contra ti a sentença condenatória de Deus?”(2).

Com efeito, Cristo deixa claro que, se guardarmos no coração ressentimentos contra nosso irmão, estaremos pecando contra Deus. Pelo contrário, se suportarmos as afrontas do próximo, isso atrairá sobre nós a misericórdia divina.

Para a caridade, para o amor ao próximo, para o perdão não pode haver limite. Dessa atitude deu-nos belo exemplo José, o filho de Jacó, ao beneficiar de todas as maneiras possíveis seus irmãos, que o tinham vendido como escravo a mercadores. Ou ainda aquele pai da parábola, quando correu ao encontro do filho pródigo, abraçou–o e o cobriu de beijos (cf. Lc 15,20)

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SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Preparação para a morte – Considerações sobre as Verdades Eternas. XVII – Abuso da Misericórdia Divina, c,I.2

SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilia 61 sobre o Evangelho de São Mateus. c.5.

Rogéria Silva

Devemos confiar na misericórdia de Deus e a aprender com Nosso Senhor a amar o próximo.Seremos perdoados a medida que perdoarmos. Abramos nosso coração para o amor de Deus e aos irmãos.