O Santo e o Leão

À primeira vista o título deste artigo nos sugere se tratar de uma fábula. Porém, na verdade narraremos um fato ocorrido na vida de um grande santo, cuja festa comemoramos neste mês, mais precisamente dia 30.

O grande santo chama-se: Jerônimo. Como se lê na Legenda Áurea seu nome significa ”visão de beleza”. A beleza é múltipla: a primeira é a espiritual, que reside na alma; a segunda é a moral, que consiste na honestidade dos costumes; a terceira é a intelectual que é a beleza dos anjos; a quarta é a sobrenatural, que pertence a Deus e a quinta é a celeste, que os Santos possuem na glória.

São Jerônimo vivenciou todas estas modalidades de beleza, pois ”possuiu a espiritual, nas suas diferente virtudes, a moral, na sua vida honesta, a intelectual, na sua excelente pureza, a sobrenatural, no seu ardente amor, e a celeste, na sua caridade magnânima e eterna”.

Esta bem! Já conhecemos o santo, mas e o leão, onde entra na história?

Certa vez, ao cair do tarde, quando São Jerônimo estava sentado com seus irmãos para escutar a leitura sagrada, de repente entrou no mosteiro um leão mancando e uivando de dor. Vendo-o, todos fugiram, somente Jerônimo permaneceu sereno e foi ao seu encontro, como se fosse um hóspede.

O leão mostrou uma pata ferida. O Santo ao examinar percebeu alguns espinhos na planta do pé da pobre fera. Pediu então aos irmãos que cuidassem da ferida do leão. Este, mesmo curado permaneceu e começou a morar com eles, quase como um animal doméstico. Então os residentes da casa, decidiram confiar-lhe a tarefa de proteger o asno, utilizado pela comunidade para carregar lenha. Assim se deu . O leão cuidava do asno como hábil pastor, além de lhe servir de companheiro e vigilante defensor.

Um dia porém, o asno estava pastando e o leão adormeceu, neste exato momento passou por ali uma caravana de mercadores e raptou o asno. Ao acordar, o leão não viu mais seu amigo, pôs-se a rugir e a correr, procurando de lá pra cá, seu companheiro. Sem encontrá-lo, voltou muito triste ao mosteiro.

Os monges ao verem o leão chegar mais tarde do que o normal e sem o burrico, não quiseram lhe dar sua ração do dia, dizendo-lhe: ”Vá comer o resto do jumento, vá saciar sua gula ”. Porém, os monges, sem terem a certeza de ser o leão o responsável pelo sumiço do asno, foram investigar mais a fundo o caso na floresta. Não achando nenhum vestígio contaram tudo ao Abade Jerônimo, o qual impôs ao leão a tarefa de trazer a lenha nas costas. O leão suportou com paciência.

Um dia depois de cumprido o trabalho, foi ao campo e pôs-se a correr, com o intuito de encontrar seu companheiro, foi quando avistou ao longe um grupo de comerciantes montados em camelos, tendo um asno na frente.

O leão reconheceu o seu velho amigo, lançou-se com pavorosos rugidos sobre a caravana e pôs todos os homens em fuga. Com mais ímpeto e veemência rugiu e forçou os assustados e carregados camelos a irem à sua frente para os estábulos do mosteiro. Quando os frades viram tal cena informaram imediatamente a São Jerônimo que disse: ” Lavem, caríssimos, as patas de nossos hóspedes, deem-lhes de comer e aguardem sobre este assunto a vontade do Senhor ”. O leão começou a correr pelo mosteiro, cheio de alegria, como fazia antigamente, e prostrando-se aos pés de cada irmão, parecia pedir perdão por uma falta não cometida.

Dias depois chegaram ao convento, alguns viajantes querendo falar com o abade. Ele foi encontrá-los. Os negociadores lançaram-se a seus pés pedindo perdão pela falta cometida. Então o abade ordenou serem restituídos os seus bens e advertiu-os para nunca mais roubarem a ninguém.

Eles então rogaram ao bem-aventurado Jerônimo que aceitasse metade do carregamento de seu azeite e os abençoasse. E a partir daquele dia o mosteiro passou a receber todos os anos a mesma quantia de azeite, fato que perdurou por várias gerações.

Poucos homens no decorrer da História conseguiram dominar um leão, podemos citar aqui Sansão quando, ”tomado pelo Espírito do Senhor”, assumia tal força que segurando as mandíbulas de uma dessas feras a matou. Mais bonita do que a força física deste juiz, é a força de alma de São Jerônimo, que por sua vez também dominou o rei dos animais.

Podemos aplicar a ele as palavras de São Paulo, ”procurou o Reino de Deus e sua justiça, e resto lhe foi dado por acréscimo”. Foi bem isto o que aconteceu com São Jerônimo. Buscava somente a glória de Deus, como vemos em seu grande zelo ao exercer a função de secretário de um sínodo em Roma, convocado por São Dâmaso. Também é de se notar sua enorme contribuição para a Igreja Católica ao traduzir a Bíblia do grego e do hebraico para o latim. Preocupando-se com coisas mais altas. Até o necessário para a subsistência Deus providenciava.

1.Conf.Legenda Áurea, p.825.
2. Op.Cit.p.826.