O homem que tinha sua alma nas mãos

Ao entrar na capela do Mosteiro da Luz, em São Paulo, tem-se a impressão de estar a quilômetros de distância da agitada avenida em frente.

O ambiente, de uma recolhida sacralidade, parece ter algo incomum. E realmente o tem: algumas pessoas rezam piedosamente em torno de uma lápide, sob a qual repousam os restos mortais do primeiro santo brasileiro, Santo Antônio de Santana Galvão.

Antes porém, voltemos atrás pouco mais de dois séculos.

Final do século XVIII. O ambiente da capela é de uma serena expectativa. Entra um frade franciscano, tal como seu Fundador, amante da beleza e das coisas bem dispostas para o culto divino.

As religiosas, suas dirigidas espirituais, o esperam para ver se lhe agradou a imagem de Santo Antônio modelada por algumas delas. O frade observa e, sem dizer palavra, dirige-se à imagem.

Contrariamente ao costume, haviam-na modelado tendo o Menino Jesus com o rosto voltado para frente. O costume era estar o Menino voltado para o santo, como a admirar a maravilhosa alma santificada por Ele mesmo.

Frei Antônio toma delicadamente a cabecinha do Menino e gira para a posição correta… sem quebrá-la ou causar qualquer dano.

Até hoje, quem vai ao Mosteiro da Luz pode admirar esta imagem. O Divino Menino olha comprazido a face de Santo Antônio.

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Frei Antônio é o primeiro santo brasileiro: Santo Antônio de Santana Galvão, canonizado em 2007 na vinda do Papa Bento XVI ao Brasil.

Nascido em Guaratinguetá em 1739, foi admitido no Seminário Jesuíta de Cachoeira, na Bahia, com apenas 13 anos. Atendendo ao chamado divino, ingressou na ordem franciscana, sendo ordenado sacerdote aos 23 anos, foi designado para o convento de são Francisco, em São Paulo.

Ali, no recolhimento, em meio às orações e meditações dá um passo decisivo em sua vida espiritual: consagra-se como escravo de Nossa Senhora com o voto especial de defender sua Imaculada Conceição.

Conhece então a Irmã Helena Maria, religiosa de profunda vida de piedade, a quem Jesus pediu em visões que fundasse um mosteiro. Frei Antônio, depois de muitas orações e consultar pessoas virtuosas e instruídas, funda o atual Mosteiro da Luz, sendo ele mesmo seu arquiteto e… pedreiro.

Muitas das atuais paredes do Mosteiro foram erguidas por ele.

Tempos depois foi designado conselheiro do Superior Geral dos franciscanos pois, segundo relato apresentado ao Núncio, era “um religioso que, por seus costumes e por exemplaríssima vida, serve de honra e consolação a todos irmãos. Todo o povo da Capitania de São Paulo, o Senado da Câmara e o próprio Bispo o respeitam como um homem santo”.

Os frutos de seu apostolado e a quantidade de seus milagres dariam para vários posts, se os quiséssemos simplesmente enumerar.

Hoje, 25 de outubro, a Igreja celebra sua memória e o propõe como modelo a nós brasileiros. Peçamos à Virgem Imaculada, Mãe de Jesus e nossa que nos faça como ele: ardentes devotos d’Ela, procurando em primeiro lugar o Reino de Deus, e assim, tudo mais nos será dado por acréscimo.