Tudo ou nada

Quem quer realizar em si o plano que Deus teve em vista ao criá-lo, vivendo num mundo materialista, baseado na tecnologia, esquece com frequência a frase de Nosso Senhor: “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Um luminoso texto põe nos devidos termos essa verdade de nossa total dependência a Deus. Seu autor é um dos maiores espiritualistas do século XX: D. João Batista Chautard:

“A ciência toda se ufana com os seus imensos triunfos e certo que títulos legítimos tem para disso se ufanar. No entanto uma coisa até hoje lhe tem sido impossível e impossível será no futuro: criar a vida, fazer sair um grão de trigo, uma larva do laboratório de um químico. As estrondosas derrotas dos partidários da geração espontânea já nos ensinaram o que devemos pensar acerca dessas pretensões: Deus guarda o poder de criar a vida.

Dom João Batista Chautard

Na ordem vegetal e animal, os seres vivos podem crescer e multiplicar-se e ainda assim a sua fecundidade apenas se realiza dentro das condições estabelecidas pelo Criador.

Ao tratar-se porém da vida intelectual, Deus reserva-a para si e Ele é quem diretamente cria a alma racional.

Um domínio há, contudo, de que Ele é ainda mais cioso — o domínio da vida sobrenatural, emanação da Vida divina” ⁽¹⁾.

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Quantas vezes porém, esquecemos desta verdade e queremos praticar a virtude, abandonar algum mau hábito, fazer bem a alguém contando unicamente com nossos recursos.

A teologia entretanto nos ensina: ninguém é capaz de qualquer ato sobrenatural sem a graça divina.

Mas, também na Escritura temos uma frase consoladora, que nos faz esperar praticar todo bem e evitar qualquer mal: “Tudo posso nAquele que me dá forças” (Fl 4, 13).

Analisemos bem as duas frases citadas:
“Sem Mim nada podeis fazer”
Tudo posso nAquele que me dá forças”.

Ou seja: sem a graça nada podemos; com a graça tudo podemos. Tudo ou nada! Não esmoreçamos pois na hora de caminhar na virtude — que muitas vezes custa — nem na hora lutarmos contra algum mau hábito.

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⁽¹⁾ Dom João Batista Chautard, A alma de todo apostolado, Civilização, Porto, 2001, p. 12.