Anchieta será canonizado em breve

Foi o que declarou o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, após sua recente visita a Roma. “O padre Anchieta deixa um grande legado missionário para o Brasil. É uma grande alegria para todo o País. Ele é o apóstolo do Brasil”, declarou.

Nascido em 19 de março de 1534, na Ilha de Tenerife, Arquipélago das Canárias, de nobre família espanhola, Anchieta foi ainda muito jovem enviado a fazer seus estudos na célebre Universidade de Coimbra.

Sentiu-se logo atraído pela Companhia de Jesus, na qual foi recebido aos 17 anos. Os médicos acharam conveniente para sua saúde que ele viesse experimentar o clima e os ares do Brasil. Assim, partiu ele em 1553, em companhia do segundo Governador Geral, Dom Duarte da Costa.

Anchieta escreve o Poema da Virgem na areia

Dotado de grande espírito empreendedor, já em janeiro de 1554, fundou a aldeia de São Paulo de Piratininga — hoje cidade de São Paulo, uma das maiores cidades do mundo.

Seus biógrafos são unânimes em acentuar duas virtudes que marcaram profundamente a alma e o apostolado desse jovem missionário: uma ardente devoção ao Santíssimo Sacramento e um terníssimo amor à Imaculada Conceição. A essas duas altas virtudes, somava-se um particular amor ao Papa, tão característico dos filhos espirituais de Santo Inácio de Loyola.

Santidade e dom dos milagres

A santidade que resplandecia em seu rosto tocava os corações dos selvagens habitantes destas terras.

Atraídos pela fama de suas excepcionais virtudes, os indígenas acorriam numerosos para ouvir suas pregações. Falando-lhes em seu próprio idioma, ensinava-lhes com eloquência os mistérios da Fé. Com a finalidade de facilitar a pregação de seus irmãos jesuítas, elaborou a primeira gramática da língua indígena.

Além disto, Deus concedeu-lhe em abundância o dom dos milagres, para tocar as almas dos índios e atraí-los a sua Santa Igreja.

A cura de um índio aleijado

Estando na aldeia de Reritiba (hoje cidade de Anchieta) no Espírito Santo, recebeu a visita de inúmeras famílias indígenas convertidas ao Cristianismo. Acolheu-as paternalmente, falou-lhes da vida eterna, das belezas indizíveis do céu, dos horrores do inferno. Maravilhados, os selvagens ouviam-no de pé. Notou, porém, que um deles estava desajeitadamente sentado, e quis saber o motivo.

Informaram-lhe que aquele pobre homem nascera tão aleijado, que andava rastejando. Comovido, o bondoso jesuíta estendeu-lhe seu bastão, ordenando em tom categórico: “Põe-te de pé! Deus te deu os olhos para contemplar o céu e não para fixar a terra, como fazem os animais”.

O aleijado pôs-se a andar desembaraçadamente e começou a correr pelos campos, com a alegria proveniente da graça que purificou sua alma. O santo missionário usava o dom dos milagres sobretudo para curar as almas.

Descrever os inúmeros milagres, seria um não mais acabar. Citemos apenas a ressurreição do índio Diogo que veio receber o Batismo de suas mãos.

O Cantor da Imaculada

Quando ficou como refém dos índios em Iperoig, fez promessa de escrever em versos a vida da Imaculada Virgem e Mãe do Redentor. Foi então que escreveu, em uma praia da atual Ubatuba, seu maravilhoso poema “Sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus”.

Admirável prodígio da graça! Sem papel, sem tinta nem pena, traçava ele na branca areia da praia os versos e gravava-os na memória. Os próprios selvagens declararam ter visto inúmeras vezes uma ave com penas de cores maravilhosas, que pousava ora nos seus ombros, ora na cabeça, ora nas mãos. Delicado presente da Mãe de Deus, para consolar aquela inocente alma, voluntariamente exilada entre feras humanas.

De volta a São Vicente, conseguiu Anchieta transpor da memória para o papel os cinco mil versos que compusera na praia.

Morte santa e serena

Anchieta passou seus últimos anos na Capitania do Espírito Santo. A 9 de junho de 1597, no colégio jesuíta de Reritiba, faleceu serenamente, pronunciando os nomes de Jesus e de Maria.

Homens, mulheres e crianças acorreram aos milhares para despedir-se aos prantos. Transportado aos ombros pelos índios, seu corpo foi sepultado em Vitória, na igreja de São Tiago.

Conforme diz o atual Cardeal de São Paulo, Dom Odilo Scherer, “Em breve, poderemos ter a alegria de ver, finalmente, proclamado ‘santo’ aquele que, já no seu funeral, no final do século 16, foi aclamado por índios e portugueses como ‘Apóstolo do Brasil'”.