SE SOUBÉSSEMOS…

Imagine o caro internauta uma cena que — infelizmente — vai se tornando cada vez mais rara nos dias que correm.

Certa família muito carente, até mesmo do essencial, encontra um dia na soleira da porta um pacote. Que conterá?

Abrem o pacote e encontram tudo o que necessitavam, não só sair da indigência, mas para levar até uma vida em melhores condições que podiam supor. Põem tudo sobre a mesa e procuram em todos os lados do invólucro o nome de quem seria o autor de tamanho benefício. Mas, em vão: não há o menor vestígio de quem seria tão generoso benfeitor.

Qual deveria ser o sentimento de gratidão para tal benfeitor? Se chegassem a conhecê-lo, quanta estima lhe teriam?

Pois bem, esses, somos cada um de nós. E o Benfeitor anônimo?

É sobre este Benfeitor que trata Mons. João Clá, Fundador dos Arautos do Evangelho no artigo cujo trecho publicamos a seguir.

O AMOR GRATUITO DE DEUS POR NÓS

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

Se tivéssemos uma noção do amor que o Criador tem por cada um de nós, talvez fôssemos capazes de avaliar com exatidão a medida com que devemos amá-Lo. Mas, sendo Deus a Humildade em substância, Ele frequentemente não mostra a mão quando intervém nos acontecimentos, para nos converter ou nos sustentar na fé.

Vitral-Igreja de São Pedro – Montreal

Deste modo, corremos o risco de formar uma ideia muito irreal da solicitude divina em relação a nós.

A iniciativa parte sempre de Deus

Somos, por exemplo, católicos, apostólicos e romanos, e pensamos ter sido nossa adesão à Religião verdadeira fruto de uma decisão motivada pela superioridade desta sobre as outras crenças.

Ou seja, julgamos termos sido nós mesmos os que escolhemos a Deus, quando, pelas nossas próprias forças, jamais seríamos capazes nem sequer de praticar de forma estável os Dez Mandamentos.

No referente à nossa conversão, é sempre o Criador quem toma a iniciativa. Foi Ele que nos criou, Ele que nos escolheu para fazermos parte da Igreja e é Ele quem nos dá as graças indispensáveis para segui-Lo.

“Vem e segue-me”

Somos prediletos de Deus

Desde toda a eternidade, manifestou uma predileção gratuita por cada um de nós ao nos escolher entre as infinitas possibilidades de criaturas humanas que existem no divino Intelecto. E, podendo nos ter destinado a uma felicidade puramente natural, quis que as criaturas inteligentes participassem de sua própria vida.

Isso é posto em realce pelo Pe. Arintero (1): “Por um prodígio de amor que jamais poderemos devidamente admirar, e muito menos agradecer, [Deus] dignou-Se sobrenaturalizar-nos desde o princípio, elevando–nos nada menos do que à sua própria categoria, fazendo-nos participar de sua vida, de sua infinita virtude, de suas peculiares ações e de sua eterna felicidade: quis que fôssemos deuses”.

Ao nos criar, Deus dotou cada um com uma vocação única, específica e irrepetível, seja religiosa ou laical. E, ao longo de toda a nossa existência nos dá, ademais, graças maiores ou menores, mas sempre suficientes para a nossa salvação eterna.

Mais ainda. Tendo o homem caído em pecado no Paraíso, Deus poderia ter feito com que ele voltasse ao nada, arrependido de havê-lo criado, ou usar inúmeros caminhos para reparar a falta cometida. Pois sendo Ele ao mesmo tempo Juiz e Ofendido, nada O impedia de perdoar a dívida contraída sem nada demandar em desagravo.

Mesmo ofendido, Deus nos redime por amor

Porém, exigindo a sua honra infinita uma reparação à altura, Deus, numa indizível manifestação de amor, impossível de ser cogitada sem o pecado dos nossos primeiros pais, resolveu entregar o seu próprio Filho à morte para nos dar a vida, como proclama São João: “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu único Filho ao mundo para que tenhamos a vida por meio d’Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados” (I Jo 4, 9-10).

Encarnando-Se e passando pelos tormentos da Paixão, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade trouxe para nós um verdadeiro oceano de graças, “uma inefável comunicação amorosa e livre, mas íntima e inconcebível, da vida divina às criaturas racionais, por onde o sobrenatural e o natural, o divino e o humano se juntam, se harmonizam e se completam, sem que por isto se confundam!”. (2)

Tal é, em grandes traços, o amor de Deus por cada um de nós.

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(1) Padre Juan González Arintero, dominicano, é considerado um dos grandes espiritualista modernos. O trecho citado é de sua obra La Evolución Mística, BAC, Madrid, 1952, p.59.

(2) Idem, p.55.

(Extratos da obra do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, “O inédito sobre o Evangelho”, Libreria Editrice Vaticana, 2014, vol. III, p. 342-357. Foi publicado na revista “Arautos do Evangelho”, nº 125, maio de 2012, p. 10-17. Para acessar o exemplar do corrente mês clique aqui )

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