FUNDAMENTO DO AMOR

Um dos tristes feitos dos tempos presente foi conspurcar certas palavras que originariamente rotulavam realidades sublimes. Uma delas é a noção de amor.

Colocando o assunto nos seus devidos termos, transcrevemos a seguir um texto do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, Fundador dos Arautos do Evangelho, publicado pela Libreria Editrice Vaticana.

A VIRTUDE DO AMOR

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

Os fundamentos do amor são muito mais profundos do que geralmente se imagina. Sendo ele um peso que arrasta aqueles que se amam — segundo afirma Santo Agostinho (1) — produz um vigoroso desejo de presença e união, exteriorizado no abraço como melhor símbolo.

Ora, tudo quanto existe tem sua fonte na onipotência divina, inclusive o amor, cujo princípio é eterno e procede do Pai e do Filho. Ambos, ao Se amarem, originam essa tendência com tão extraordinária força que dela procede uma Terceira Pessoa.Assim como o amor produz em nós uma inclinação em relação ao ser amado, Pai e Filho, seres infinitamente amáveis, amam Seu próprio Ser Divino. Aí está a origem do Amor, enquanto Pessoa procedente da união entre Pai e Filho.

Cristo Pantocrator – São Petersburgo – Rússia

O Gênesis, ao narrar a grande obra da Criação, descreve como Deus contemplava a realização de cada dia e atribuía um valor respectivo à obra saída de Seu poder, pois o grau de perfeição de cada ser sempre é infundido por Seu amor, e na proporção deste.

A virtude mais importante para a salvação

Já no Evangelho, verifica-se quanto o Filho de Deus louva a fé do centurião (cf. Lc 7, 9) e da cananéia (cf. Mt 15, 28), premiando-a com milagres. Mais adiante, Cristo exalta a fé de Pedro, declarando proceder esta de uma revelação feita pelo Pai, e por isso proclama-o bem-aventurado (cf. Mt 16, 17).

Entretanto, Jesus nos fala também de uma virtude que é, por si só, capaz de perdoar um enorme número de pecados, chegando a defender publicamente uma pecadora contra aqueles que a acusavam: “Porque muito amou” (Lc 7, 47). Ora, não podemos nos esquecer de como o Senhor conhece o valor e o prêmio de cada ato de virtude. Devemos, portanto, face à salvação eterna, compreender como é mais importante amar do que praticar a fé.

Ícone ucraniano

Jesus, supremo modelo de amor

Para se atingir o mais alto grau de perfeição dessa virtude é indispensável admirá-la em Cristo Jesus e imitá-Lo.

O amor do Filho de Deus, é todo especial, por se desenvolver dentro de um prisma sobrenatural e ter por objeto o Ser Supremo. Há, portanto, uma notável diferença entre Ele e nós. No Verbo Encarnado, o amor divino e o humano, pela união hipostática,se reúnem numa só Pessoa.Quanto a nós, “o amor de Deus se derramou em nossos corações por virtude do Espírito Santo” (Rm 5, 5); ou seja,ele nos é dado. Para poder alcançá-lo, devemos pedi-lo.

Apesar desta diferença, Jesus é o nosso insuperável modelo, pois é impossível encontrar nEle qualquer sombra de interesse que não seja a glória do Pai. Assim também deve ser o nosso amor. E, se bem que em Jesus nunca tenha havido fé — pois, desde o primeiro instante de Sua existência, a alma dEle esteve na visão beatífica —em nós, essa virtude deve estar sempre acompanhada de um caloroso amor, o mais semelhante possível ao de Jesus.

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(1) Santo Agostinho, Confissões, 1. 13, §9.

( Trecho de “O inédito dos Evangelhos”, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, Libreria Editrice Vaticana, 2013, p. 408-423. Publicado também na revista “Arautos do Evangelho”, nº 82, de outubro de 2008, p. 14-21. Para acessar o exemplar do corrente mês clique aqui )

Ilustrações: Arautos do Evangelho, Gustavo Krajl