PAGAR O MAL COM O BEM

Volta do filho pródigo - Vitral na Catedral de Ferrara (Itália)
Volta do filho pródigo – Vitral na Catedral de Ferrara (Itália)

Ouvimos muitas vezes este ou aquele falar em “amar o próximo”. Há, porém, uma categoria de “próximo” que muitas vezes é o mais difícil de amarmos: é aquele que nos causou algum mal. A estes, a forma de amar é dada pelo próprio Jesus: perdoar a seu irmão, de todo seu coração, (Mt 18, 35b) Esta forma de amor é comentada pelo Mons. João Clá, Fundador e Superior Geral dos Arautos do Evangelho no texto transcrito a seguir.

DEUS É CLEMENTE, MAS TAMBÉM JUSTO

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP                                                                 mons-ae      

O Divino Mestre não veio pregar a impunidade nem o laxismo moral. Deus é clemente, mas também justo. E, em face de benefícios gratuitos de tal monta, devemos ter presente que em certo momento precisaremos prestar contas ao Benfeitor. Porque, como ensina Santo Afonso de Ligório, “a misericórdia foi prometida a quem teme a Deus e não a quem dela abusa […] se Deus espera com paciência, não espera sempre”. (¹)

A justiça e o perdão se postulam, e devem andar juntos. Justiça não é vingança cega, mas reparação da ordem moral violada. Essa é a regra que Nosso Senhor veio estabelecer entre os homens.

A FALTA DE RECIPROCIDADE AFASTA O PERDÃO DE DEUS

Nosso Senhor é muito claro ao sublinhar a necessidade de perdoar “de todo seu coração” o irmão, e não apenas formalmente. É preciso, portanto, eliminar do nosso espírito a amargura pela ofensa recebida, fruto do amor-próprio. “Guardando rancor — afirma o Crisóstomo —cravamos em nós mesmos a espada. Porque, o que é aquilo que pode ter feito teu ofensor, comparado com o que fazes a ti mesmo quando te enches de ira e atrais contra ti a sentença condenatória de Deus?”. (²)

jose-vendido-como-escravo-ae-editCom efeito, Cristo deixa claro aqui que, se guardarmos no coração ressentimentos contra nosso irmão, seremos entregues aos torturadores, como o empregado mau da parábola. Pelo contrário, se suportarmos as afrontas do próximo como reparação pela infinita dívida que temos com o nosso Criador, isso atrairá sobre nós a misericórdia divina.

Para a caridade, para o amor ao próximo, para o perdão não pode haver limite. Dessa atitude deu-nos belo exemplo José, o filho de Jacó, ao beneficiar de todas as maneiras possíveis seus irmãos, que o tinham vendido como escravo a mercadores. Ou ainda aquele pai da parábola, quando correu ao encontro do filho pródigo, abraçou-o e o cobriu de beijos (cf. Lc 15, 20).

PERDOAR ASSEMELHA O HOMEM A DEUS

Deus tem, por assim dizer, necessidade de ser misericordioso. “A onipotência de Deus se manifesta, sobretudo, perdoando e praticando a misericórdia, porque, por essas ações, se mostra que Deus tem o supremo poder”, (³) ensina São Tomás.

Ora, é conforme a esse modelo de superabundante clemência que devemos nos amar uns aos outros. E, à imitação de nosso Criador, precisamos perdoar de tal maneira que até esqueçamos a ofensa recebida.

José perdoa os irmãos que o haviam vendido
José perdoa os irmãos que o haviam vendido

Perdoar, contudo, nem sempre é fácil. Exige vencer o amor-próprio que deseja represálias e guarda rancor no coração. Com efeito, se a vingança está de acordo com a natureza humana decaída, “nada nos assemelha tanto a Deus quanto a doçura e a caridade com aqueles que nos ultrajam com mais malícia e violência” (4), escreve São João Crisóstomo.

Não é na riqueza nem no poder, mas na capacidade de perdão que a pessoa manifesta a verdadeira grandeza de alma. Se pagar o bem com o mal é diabólico, e pagar o bem com o bem é mera obrigação, contudo, pagar o mal com o bem é divino. E assim deve proceder doravante o homem divinizado pela graça comprada com o Preciosíssimo Sangue do Redentor.

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(1) SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Preparação para a morte – Considerações sobre as Verdades Eternas. XVII – Abuso da Misericórdia Divina, c, I.

(2) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilia 61 sobre o Evangelho de São Mateus, c.5.

(3) SÃO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, I, q.25, a.3,ad 3.

(4) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilia 19 sobre o Evangelho de São Mateus, c.7.

 

(Publicado originalmente em “O inédito sobre os Evangelhos”, Libreria Editrice Vaticana, 2013, vol. II, p. 243. Foi também publicado na revista “Arautos do Evangelho”, nº 117, de setembro de 2011, p.16-17).