As sete palavras de Maria

Ao lermos os Evangelhos, vemos o altíssimo papel de Nossa Senhora aparecer em toda sua clareza, apesar do que diz São Luiz Grignion em seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, ressaltando a humildade d’Ela: “Para atender aos pedidos que Ela fez de escondê-La, empobrecê-La e humilhá-La (…) o Espírito Santo consentiu que os Apóstolos e Evangelistas a Ela mal se referissem, e apenas no que fosse necessário para manifestar Jesus Cristo” (1).

Nesse sentido, se procurarmos palavras suas, veremos que os Evangelistas só registram seis frases pronunciadas pela Virgem. Todas de uma densidade impressionante, a ponto de os teólogos dividirem uma delas em duas frases distintas. Como veremos a seguir (2ª e 3ª palavras).

Dessas sete palavras (2), três são dirigidas a Deus, três ao Anjo e apenas uma aos homens.

PALAVRAS AO ANJO

PRIMEIRA PALAVRA

Em resposta à saudação do Anjo anunciando-lhe que será a Mãe do Messias, Maria responde:“Como se fará isto se tenho voto de virgindade?”(Lc 1, 34) É uma pergunta, não de quem quer pôr uma dificuldade, mas de quem quer saber como se conciliarão as duas situações.

Sobre o voto de virgindade de Maria Santíssima, cumpre notar que, devido à promessa de que o Messias nasceria de uma descendente de Davi, as jovens judias procuravam casar-se para poderem vir a ser antepassadas do Messias.

Maria Santíssima, a obra-prima saída das mãos de Deus, nas suas longas e sublimes meditações sobre a excelsitude de Deus, tinha-se em conta de nada. Por isso jamais passou pela sua mente que poderia ser Ela a escolhida e, julgando-se indigna, fez o voto de virgindade.

Essa renúncia é melhor prova da profundíssima humildade de Nossa Senhora. Como prêmio foi Ela a escolhida por Deus.

SEGUNDA E TERCEIRA PALAVRA

A segunda resposta ao Anjo, “Eis a escrava do senhor; faça-se em mim segundo sua vontade” (Lc, 1, 38) é de tal profundidade que inúmeros exegetas a dividem em duas: na primeira parte (“Eis a escrava do Senhor”) Maria afirma ser a escrava de Deus; na segunda (“Faça-se em mim segundo a sua vontade”) ela age como escrava.

PALAVRAS A DEUS

QUARTA PALAVRA

A primeira “palavra” de Nossa Senhora dirigida a Deus que os Evangelhos registram é o Magnificat (Lc 1, 46-55). Louvada por Santa Isabel, imediatamente Ela restitui a Deus a grandeza que a prima vê nela. E entoa o mais belo cântico jamais proferido por lábios humanos:

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador”…etc.

Como imaginar a beleza, a harmonia, a sublimidade de Nossa Senhora cantar! Só na bem-aventurança eterna poderemos ter ideia. Quem sabe, pedindo à Virgem Santíssima que cante mais uma vez…

Outro aspecto do Magnificat é como, embora com o claro intuito de restituir a Deus tudo que nela fizera, fica claro a grandeza de Nossa Senhora:

Todas as gerações me chamarão bem-aventurada”

fez em mim grandes coisas”

QUINTA PALAVRA

A frase seguinte é a pergunta aflita mas resignada, dirigida a Jesus discutindo no Templo: “Filho por que agistes assim conosco. Eis que teu pai e eu te procurávamos aflitos” (Lc, 2, 48).

Nossa Senhora sabia que, sendo Deus, Jesus não poderia ter feito nada de imperfeito, mas Ela não sabia a razão. Talvez, na sua humildade atribuísse a alguma falta sua.

SEXTA PALAVRA

Nas bodas em Caná, diz a Jesus: “Eles não têm mais vinho”(Jo 2, 3). Também na nossa vida é Ela a primeira a se dar conta do que precisamos.

E Jesus realiza seu primeiro milagre… apesar de que “não chegara a sua hora”.

A ÚNICA PALAVRA PARA OS HOMENS

SÉTIMA PALAVRA

Fazei tudo que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Tal era a certeza de Nossa Senhora que seria atendida, que Ela assim age.

Nas pessoas dos servidores de Caná, estamos representados todos os homens. O que nos diz Ela? “Fazei tudo que Ele vos disser”.

É a única palavra que Ela dirige aos homens.

Vemos, como sempre afirmou a Santa Igreja, que Nossa Senhora sempre nos leva a Jesus (Cf. Tratado da verdadeira devoção…, nºs 61-67). Na expressão recentemente usada, nada de mais cristocêntrico.

(1) São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”, Ed. Vozes, Petrópolis, 46ª edição, 2015, n. 3 e 4, p. 19-20.

(2) Palavra: a expressão é aqui usada referindo-se à frase. Como os autores em geral se referem às frases pronunciadas por Jesus na Cruz como “As sete palavras”. Aliás, coincidindo em número com as sete palavras de Nossa Senhora.

Ilustrações: Arautos do Evangelho, pixabay, Ricardo Castelo Branco