POR QUE?

Passou fazendo o bem”. Assim São Pedro resume a vida de Jesus.

A figura divina de Nosso Senhor sempre se nos apresenta ora curando um enfermo, ora consolando um aflito ou ressuscitando um morto. E o Evangelho narra que foi precisamente após ressuscitar Lázaro que os fariseus decretaram: “É preciso matá-Lo!” Por que? O texto a seguir, de autoria do Prof. Plinio Correa de Oliveira nos esclarece bem esse mistério da iniquidade.

 

ATARAM-LHE AS MÃOS PORQUE FAZIAM O BEM

Plinio Corrêa de Oliveira

Por que foi o Senhor manietado por seus algozes? Por que impediram eles o movimento de Suas mãos, prendendo-as com duras cordas? Só o ódio ou o temor poderiam explicar que assim se reduza alguém à imobilidade e à impotência. Por que odiar assim estas mãos? Por que temê-las? (…)

Vossas mãos, Senhor, o que fizeram? Por que foram atadas? (…)

Quem pode dizer, Senhor, a glória que estas mãos agora sangrentas e desfiguradas, e entretanto tão belas e tão dignas desde os primeiros dias de Vossa infância, deram a Deus quando sobre elas pousaram os primeiros ósculos de Nossa Senhora e São José? Quem pode dizer com quanta meiguice fizeram a Maria Santíssima o primeiro carinho? Com quanta piedade se uniram pela primeira vez em atitude de prece? E com quanta força, quanta nobreza, quanta humildade trabalharam na oficina de São José? (…)

Vossas divinas mãos tiveram virtudes misteriosas e sobrenaturais para afagar os pequeninos, acolher os penitentes, curar os enfermos. Amor tão ardente, tão abundante, tão comunicativo, que de lá até hoje, sempre que as mãos de um cristão — e mais especialmente de um Sacerdote — se movem para afagar os pequeninos, consolar os penitentes, ministrar remédio aos enfermos, o amor que as anima não é senão uma centelha deste infinito amor, meu Deus.

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Mas então mãos tão sobrenaturalmente fortes que ao seu Império vergavam todas as leis da natureza, e ao seu aceno a dor, a morte, a dúvida fugiam, estas mãos tinham ainda outra função a exercer. Não falastes do lobo voraz? Seríeis Pastor se o não repelísseis? E se tudo fazíeis com força irresistível, como poderia alguém não sentir o golpe do látego que empunhásseis?

O lobo, sim… e antes de tudo o demônio. Vossa vida tornou patente que o demônio não é uma entidade de ficção ou quase tanto, um ser a que é tão raras vezes dado a poder de agir, que praticamente a imensa maioria das coisas se passam como se ele não existisse. Os homens hipócritas ou de costumes dissolutos, ostentando vestes de justiça e até do sacerdócio, tudo isto aparece nos Evangelhos, não só como consequência da depravação humana em virtude do pecado original e da nossa maldade, mas também como obra do demônio, ativo, diligente, emboscado ali e acolá, e denunciando por vezes sua presença com espetaculares manifestações de obsessão e de possessão. (…)

Não houve vício contra o qual não falásseis, mas também o mal em concreto, enquanto realizado nos homens, e não só nos homens em geral, mas em certas classes — os fariseus por exemplo — e não só em certas classes mas em certos homens concretissimamente considerados: os vendilhões do templo estão imortalizados nas páginas do Evangelho, pelo castigo exemplar que sofreram. (…)

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E estas mãos que foram tão suaves para os homens retos como João, o inocente, e Madalena, a penitente, estas mãos que foram tão terríveis para o mundo, o demônio, a carne, por que estão aí atadas e postas em carne viva? Porventura por obra dos inocentes, dos penitentes? Ou antes por obra dos que delas receberam merecido castigo e contra esse castigo diabolicamente se revoltaram? (…)

Senhor, para compreender esta monstruosidade, é preciso crer no mal. É preciso reconhecer que tais são os homens, que sua natureza facilmente se revolta contra o sacrifício, e que quando entra no caminho da revolta, não há infâmia nem desordem de que não seja capaz. (…)

E quando alguém Vos diz não, começa a Vos odiar, odiando todo o bem, toda a verdade, toda a perfeição de que sois a própria personificação. E, se não Vos tem à mão sob forma visível para descarregar seu ódio satânico, golpeia a Igreja, profana a Eucaristia, blasfema, propaga a imoralidade, prega a revolução. (…)

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Vossos inimigos amam tanto o mal, que percebem ainda sob as humilhações das cordas que Vos prendem toda a força de Vosso poder… e tremem! (…) Querem derramar a última gota de Vosso sangue, querem ver-Vos exalar o último alento. E ainda assim não estão tranquilos. Morto, ainda incutis terror. É necessário lacrar Vosso sepulcro, e cercar de guardas armados o Vosso cadáver. Como o ódio ao bem os torna perspicazes a ponto de perceberem o que há de indestrutível em Vós. (…)

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Mas quanta razão tinham Vossos inimigos! Ressuscitastes. Não só as cordas e os cravos de nada valeram, mas nem a laje do sepulcro, nem o cárcere da morte Vos puderam reter. (…)

Senhor meu, que lição! Vendo a Igreja perseguida, humilhada, abandonada por Seus filhos, negada pelos costumes pagãos e pela ciência panteísta de hoje, ameaçada de fora pelas hordas do comunismo, e por dentro pelos desatinos dos que querem pactuar com o demônio, hesito, tremo, julgo tudo perdido.

Senhor, mil vezes não! Vós ressuscitastes por Vossa própria força, e reduzistes a nada os vínculos com que Vossos adversários pretendiam Vos reter nas sombras da morte.

Vossa Igreja participa dessa força interior e pode a qualquer momento destruir todos os obstáculos com que a cercam.

Nossa esperança não está nas concessões, nem na adaptação aos erros do século. Nossa esperança está em Vós, Senhor.

Atendei as suplicas dos justos, que Vos imploram por meio de Maria Santíssima: Enviai, ó Jesus, o Vosso Espírito, e renovareis a face da terra.

(Excertos do artigo do mesmo título publicado no mensário “Catolicismo”, abril de 1952 )
Ilustrações: Arautos do Evangelho, Eric Salas, Gustavo Krajl, wiki