Vendo a Deus num espelho

Num pequeno povoado do litoral da França havia uma família inteiramente entregue às ideias e costumes da época cética e frívola que antecedeu a tormentosa Revolução Francesa.

Mateus, o pai, filósofo formado na Universidade de Paris, homem inteligente e muito culto, havia se deixado levar pelos censuráveis costumes da época. Lorena, a mãe, estudara num colégio de religiosas, recebendo bons conhecimentos da doutrina católica. Era, em suma, uma moça de boa educação e cultura. Entretanto, frequentou por longos anos a corte, aderindo inteiramente ao espírito dito “moderno”, e aos costumes dissolutos.

Tinham um filho único, Michel, de inteligência viva e sagaz, brincava, estudava e vivia como os demais meninos de sua idade.

O casal dispôs que ele fosse submetido a uma experiência, a fim de comprovar a teoria de que a crença em Deus surgia no homem apenas por causa da influência da sociedade.

A época em que viviam, chamada ironicamente o “século das luzes” fez os franceses passassem a viver num ambiente todo feito de aversão à Religião Católica e, portanto, a Deus. A fim de que Deus fosse apagado da memória dos homens, alguns pensadores sugeriam serem as crianças educadas na total ignorância do Criador, pois, segundo eles, a crença em Deus provinha de uma mera convenção da sociedade. As pessoas, diziam eles, acreditavam em Deus devido à formação recebida. Por outro lado, se a religião lhes fosse silenciada, jamais acreditariam na existência de Deus.

Mateus e Lorena queriam comprovar essa teoria. Mudaram-se então para a propriedade que tinham numa ilha, jamais falariam de Deus e estariam longe de qualquer influência. O menino, sem perceber a malévola intenção de quem lhe deveria dar o bom exemplo, vivia na alegria da inocência infantil.

O tempo passou. Ao completar 8 anos, Michel já estava acostumado a se aventurar pelas montanhas da ilha. Das alturas, comprazia-se em contemplar as vastidões do mar, especialmente nos momentos em que o Sol dourava as águas antes de desaparecer no horizonte.

 

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Certo dia, Mateus, seu pai, saiu à tardinha na direção que Michel costumava tomar: queria ver em que se entretinha o filho. Sabia que Michel gostava de permanecer longamente num alto rochedo na direção do poente.

Lá chegando deparou-se com uma cena verdadeiramente comovedora: o menino estava sentado sobre uma rocha a contemplar o pôr do Sol. Lentamente o pai se aproximou de seu filho, e notou que ele estava chorando. E qual não foi a sua surpresa ao ouvir que, de seus lábios inocentes, brotava a seguinte oração: “Ó Sol, mande um beijo Àquele que criou a ti e a mim!”

Comovido, o pai abraçou seu filho e o levou de volta. Já não mais estava nos antros da incredulidade: Deus, de fato, existe, e através da contemplação da natureza Ele se “revelou” ao menino!

A certeza da existência de Deus, por sua vez, ele a viu numa alma inocente.

Ilustrações: Arautos do Evangelho, [email protected], brfreepic, reprodução