Esperteza, uma virtude esquecida

É frequente encontrarmos quem ache que, pelo fato de alguém procurar ser bom, é um tolo, qualquer um engana, etc. Desse modo procuram associar a idiotice aos bons e a esperteza aos maus.

Essa visualização faz muitos que querem ser bons, velarem e diminuírem seu desejo de realmente o serem e, às vezes, darem ares de “maus”, para serem aceitos pelo mundo.

A generalização de artifícios como este, dificulta a prática da virtude e faz parte daquilo que Nosso Senhor chama de “mundo”, seu maior inimigo.

Vejamos um pouco no atuar de Jesus e na vida dos Santos, a virtude da esperteza dos bons. Pois não disse Jesus: “Sede, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10, 16)? Com estas palavras, Ele nos recomenda: sede inocentes, sim, mas também espertos! Inocência sem esperteza pode resultar em tolice.

DOIS SUBLIMES EXEMPLOS DE JESUS

O Divino Mestre nos estimula não só por palavras, mas também pelo exemplo (cf. Lc 20, 1‑8.20‑26). Assim, estava Ele certo dia ensinando no Templo quando os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos O interpelaram:

— Com que direito fazes estas coisas?

Bem poderia o Filho de Deus replicar que o fazia por autoridade própria. Mas preferiu agir de forma diferente. Talvez, entre outros motivos, para dar-nos uma lição de esperteza.

— Também Eu vos farei uma pergunta: o batismo de João era do Céu ou dos homens?

Pergunta embaraçosa. Se afirmassem ser “do Céu”, receberiam o xeque-mate: “Por que, então, não crestes nele?”. Se respondessem “dos homens”, correriam sério risco de serem apedrejados pelo povo. Depois de curta confabulação, viram–se constrangidos a entregar os pontos:

— Não sabemos.

— Pois então não vos direi com que direito faço estas coisas — treplicou Jesus.

Forçados a reconhecer sua derrota, os inimigos do Salvador mudaram de tática: procuravam armar-Lhe uma cilada para acusá-Lo perante o governador romano. Fingindo-se homens de bem, lançaram-Lhe a capciosa pergunta:

                        A moeda do tributo

— Dize-nos, Mestre, é permitido ou não pagar o imposto a César?

Se Jesus respondesse afirmativamente, punha contra Si o sentimento religioso dos judeus. Se respondesse negativamente, seus inimigos o acusariam ao governador romano como sendo contrário a César.

Jesus pede que um deles mostre a moeda que leva consigo e pergunta:

— De quem é esta imagem e inscrição?

— De César.

— Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus— respondeu-lhes Jesus.

Réplica tão eficaz que o Evangelista encerra a narração do episódio com uma simples observação: “Assim não puderam surpreendê-Lo em nenhuma de suas palavras diante do povo. Pelo contrário, admirados da sua resposta, tiveram de calar-se”(Lc 20, 26). Ou seja, em termos mais populares, tapou-lhes a boca.

DEVEMOS IMITAR JESUS

Dando-nos esses exemplos, o Divino Mestre nos convida a imitá-Lo.

Bem O imitaram os Santos no decorrer dos séculos. A tal ponto que quem se propusesse escrever uma obra intitulada Antologia das santas espertezas teria matéria para centenas de volumes.

                                             Julgamento de São Paulo

Poucas, porém, coruscantes como esta de São Paulo (cf. At 21, 27‑33). Estava ele em Jerusalém quando os judeus o agarraram, espancaram e tê-lo-iam matado, se não interviesse o tribuno romano com suas tropas. Mandou este reunir-se em sua presença o Sinédrio, e intimou o Apóstolo a apresentar sua defesa. Num instante São Paulo avaliou a situação na qual se encontrava e, sabendo que o Sinédrio se compunha de fariseus e de saduceus, disse com voz forte:

— Irmãos, sou fariseu e filho de fariseus, e estou sendo julgado por causa de minha esperança na ressurreição dos mortos.

Armou-se uma ruidosa discussão entre seus acusadores; de um lado, os fariseus, favoráveis à doutrina da ressurreição dos mortos e da existência de Anjos; de outro, os saduceus, ferrenhos inimigos de uma coisa e outra.

— Não encontramos mal algum neste homem! Quem sabe se não lhe falou algum espírito ou um Anjo…— gritavam alguns fariseus.

Encerrou-se o “julgamento”: os fariseus tinham livrado Paulo das mãos deles próprios… e dos saduceus. Quem diria? O ardoroso Apóstolo defendido no Sinédrio pelos seus mais acirrados adversários! Uma curta frase, pronunciada no momento exato, produziu a prodigiosa reviravolta.

EXEMPLO DE UM SANTO

Santo Atanásio

Atanásio, Patriarca de Alexandria, fugia dos soldados enviados pelo imperador Juliano, o Apóstata, para prendê-lo. Os remadores se esforçavam para aumentar a velocidade do bote que subia o rio Nilo. Os soldados romanos o perseguiam numa galera. A certa altura, fazendo uma curva em torno de uma ilhota, o pequeno barco ficou momentaneamente fora da vista dos perseguidores, e o santo Bispo ordenou aos remadores:

— Façam meia-volta, vamos de encontro à galera.

Quando se cruzavam as duas embarcações, o comandante da patrulha imperial perguntou aos homens do bote:

— Viram por acaso Atanásio subindo o rio?

— Sim! Há pouco ia ele numa canoa logo após aquela curva — respondeu o próprio Atanásio.

A embarcação romana sai na direção apontada…

 

(Baseado no artigo “A virtude da esperteza” do Pe. Francisco Teixeira de Araújo, EP, revista “Arautos do Evangelho”, nº 157, janeiro de 2015, p. 16-18. Para acessar a revista Arautos do Evangelho do corrente mês clique aqui )

 

Ilustrações: Arautos do Evangelho, Gustavo Krajl, GaudiumPress, Sergio Holmann.
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One Response to Esperteza, uma virtude esquecida

  1. Lucio Contreras says:

    E quantas vezes somos bobos deixando nos levar pela opinião dos outros