Como muitos sabem, os três mosqueteiros eram quatro… Poucos, porém, conhecem outras obras igualmente atraentes do mesmo autor, Alexandre Dumas. Este literato não teve uma vida caracterizada pela piedade, mas arrebatou imaginações com seus romances de capa e espada. E foi, por sua vez, arrebatado, pela beleza da oração do Angelus ao pôr do sol. ⁽*⁾

Consegue ele pôr em palavras os imponderáveis da cena descrita a seguir.

— A Ave-Maria — disse o capitão em alta voz. A estas palavras, cada qual dirigiu-se ao convés.

De um extremo ao outro da Itália, essa oração, que cai em uma hora solene, encerra o dia e abre a noite. Esse momento do crepúsculo, em toda parte cheio de poesia, no mar é acrescido de uma santidade infinita.

Essa misteriosa imensidade do ar envolvente e das ondas, esse sentimento profundo da fraqueza humana comparada ao poder onipotente de Deus, essa escuridão que avança, e durante a qual o perigo, sempre presente, vai crescer ainda mais, tudo (…) inspirava à tripulação e a nós mesmos um profundo recolhimento.

A noite começava a tornar-se mais espessa no oriente(…) enquanto no ocidente o sol alargado e listrado de longas faixas violetas começava a embeber a orla de seu disco no Mar Tirreno, que, cintilante e movimentado, parecia rolar ondas de ouro derretido.

Nesse momento, o piloto levantou-se, tomou em seus braços o filho do capitão, que pôs de joelhos sobre o teto da cabine; e, abandonando o leme como se a embarcação estivesse suficientemente dirigida pela oração, sustentou o menino para que o balanço não lhe fizesse perder o equilíbrio.

Esse grupo singular destacou-se logo sobre um fundo dourado, semelhante a uma pintura célebre; e com uma voz fraca, que apenas chegava até nós, e que, entretanto, acabava de subir até Deus, começou o menino a recitar a prece virginal que os marinheiros escutavam de joelhos e nós inclinados.

Eis uma dessas lembranças para as quais o pincel é fácil e a pena insuficiente. Eis uma dessas cenas que narração alguma pode descrever, que nenhum quadro pode reproduzir, porque sua grandeza está inteira no sentimento íntimo dos atores que a realizam.

Para um leitor de viagens ou um amante das coisas do mar, não será senão uma criança que reza, homens que respondem e um navio que flutua. Mas, para qualquer pessoa que tiver assistido a uma cena parecida, será um dos mais magníficos espetáculos que tenha visto, uma das mais magníficas lembranças que tenha guardado; será a fraqueza que reza, a imensidade que olha, e Deus que escuta.

*⁾ (Alexandre Dumas (pai), “Le Speronare: La Sicile, impressions de voyage”,  Ed Des Jonqueres, Paris, 1988, apud Guy Gabriel de Rider, revista “Arautos do Evangelho”, nº 19, julho de 2003, p. 24-25. Para acessar a revista Arautos do Evangelho do corrente mês clique aqui )

 

Ilustrações: Arautos do Evangelho, freeflick, divulgação(Russian Navy)