Ouvi certa vez de uma pessoa de muito bom senso a seguinte frase: “o óbvio, nós esquecemos”. É o que acontece com o culto devido a São José. Não seria compreensível que Deus feito homem, Jesus, colocasse junto a Si, como pai adotivo, uma pessoa apagada, sem brilho.
O Mons. João Clá, EP, fundador e Superior dos Arautos do Evangelho, nos esclarece a razão dessa insuficiência no culto a São José no trecho introdutório de seu comentário à Solenidade do Santo, transcrita a seguir.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
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Figura ímpar, exaltada pela Igreja junto com a de Maria, nunca será suficiente louvar São José, tal a quantidade de maravilhas e privilégios com que aprouve a Deus cumulá-lo. Infelizmente este glorioso Patriarca muitas vezes é esquecido, sendo seu culto menor do que mereceria.
Encontramos uma explicação para isso no desvio ocorrido nos primeiros tempos do Cristianismo com relação à devoção a Nossa Senhora. Com efeito, os fiéis admiravam tanto a grandeza d’Ela que alguns chegaram a reverenciá-La como se fosse uma deusa (1).
Ensina São Tomás de Aquino (2) que toda situação intermediária, considerada a partir de um dos extremos, se parece com o oposto. E foi o que se deu com o culto à Santíssima Virgem, pois, analisada a partir de nossa condição de criaturas concebidas no pecado original, Ela parece mais perto de Deus do que de nós.
A Igreja evitou esse erro mantendo certos limites nas demonstrações de piedade mariana. Só no século IV declarou o dogma da maternidade divina, definindo a participação relativa de Maria no plano da união hipostática, o mais alto grau de toda a ordem da criação, e deixou passar longos séculos para, afinal, proclamar sua Conceição Imaculada.
Foi preciso, no início, fixar a adoração a Nosso Senhor Jesus Cristo para depois estimular o amor à Mãe de Deus, ao sabor dos ritmos divinos soprados pelo Espírito Santo.
Com relação a São José, não parece ser outra a razão. Talvez Nosso Senhor tenha querido que certos aspectos desse varão permanecessem ocultos para impedir que, exageradamente enaltecidos, viessem a ofuscar a figura de Cristo, pois as atenções deviam estar todas voltadas para Ele.
Não é compreensível, entretanto, que sendo Jesus o Homem-Deus, nascido de uma Mãe Imaculada, colocasse junto a Si, como pai adotivo, uma pessoa apagada, sem brilho. Portanto, se durante vinte séculos São José permanece escondido e retirado, é de se esperar que esteja chegando a hora em que a teologia explicite verdades novas a seu respeito, pelas quais se torne conhecido, com exatidão e nas suas minúcias seu papel na Sagrada Família e a categoria de sua elevação enquanto esposo de Maria, pai de Jesus e Patriarca da Santa Igreja.
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(1) Cf. ALASTRUEY, Gregorio. Tratado de la Virgen Santísima. 4.ed. Madrid: BAC, 1956, p.841.
(2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.50, a.1, ad 1.
(Transcrito do artigo do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, “Elevado a alturas inimagináveis…” na revista “Arautos do Evangelho”, nº 147, março de 2014, pp. 11-12)





