Telefone desligado

Da sala de coordenação onde estávamos, acompanhei a conversa telefônica de dois funcionários colocados em salas bem distantes uma da outra.

O que fizera a ligação, exaltado, dizia as coisa mais disparatadas. O que recebera a ligação, impassível, em certo momento desligou o telefone e colocou-o calmamente sobre a mesa. O vociferador não se deu conta e continuou a cantilena.

Só depois de muito tempo percebeu que o colega tinha desligado.

Esse fato fez-me lembrar um comentário do Mons. João Clá, Fundador e Superior Geral dos Arautos do Evangelho publicado pela Editora Vaticana, “O inédito sobre os Evangelhos” ⁽¹⁾ sobre a inutilidade de certas orações devido ao estado de espírito de quem reza.

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Quando é inútil rezar?

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

Se quisermos ter certeza de que nossa oração é atendida por Deus, devemos imitar o modo de rezar do publicano, humilhando-nos diante d’Ele e pedindo perdão por nossos pecados.

O orgulho: causa de todos os vícios#

”Serpentes! Raça de víboras!” (Mt 23, 33). Eis alguns dos títulos saídos dos divinos lábios de Jesus para designar os fariseus. Nesse mesmo capítulo de Mateus, estão agrupadas as principais recriminações de que foram objeto: eram “hipócritas”, despojavam as viúvas, fechavam as portas do Reino do Céu, transformavam seus prosélitos em filhos do inferno, eram “insensatos guias de cegos”, “sepulcros caiados”, herdeiros da maldição pelo “sangue inocente derramado sobre a terra”.

Na realidade, foram eles os mais ferrenhos opositores ao Reino de Deus, trazido pelo Messias. E apesar de as provas a respeito do Reino serem numerosas e evidentes, eles não só as rejeitavam como, se lhes era possível, silenciavam-nas ou ofereciam malévolas interpretações às mesmas.

Em suas almas, onde estaria fixada a raiz desse terrível pecado contra o Espírito Santo?

A mais perigosa das vaidades

Os fariseus tiveram uma origem virtuosa, quando procuraram se separar daqueles que se deixavam influenciar pelo mundano relativismo propagado pela Grécia, por volta de duzentos anos antes de Cristo. Porém, por falta de vigilância e ascese,como não raras vezes acontece, caíram numa das mais perigosas vaidades: a que se junta ao desejo de perfeição. Ao abraçar as vias da santidade, é indispensável ao cristão colocar o interesse de Deus acima de toda a criação, como também, devotar aos interesses do próximo uma atenção maior do que aos seus, de ordem pessoal, e estes, confiá-los à Providência Divina, tal como ensina o salmista: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória” (Sl 113, 9).

Fariseu

Esqueceram-se os fariseus ser necessário pôr um freio em seu ânimo, para evitar sua imoderada exacerbação, praticando, assim, a essencial virtude da humildade, tal como a define São Tomás de Aquino: “A humildade reprime o apetite, para que ele não busque grandezas além da reta razão”.⁽²⁾ “Importa que conheçamos o que nos falta, em comparação com o que excede nossa capacidade. É próprio, pois, da humildade, como norma e diretriz do apetite, conhecer as próprias deficiências”.⁽³⁾

Na ausência da virtude da humildade, lento mas profundo e fatal foi o processo de uma separação dos demais, em princípio boa e até necessária, para metamorfosear-se numa supervalorização de suas autênticas ou supostas qualidades morais. É suficientemente ilustrativo desse estado de alma, ouvir estas palavras, saídas dos lábios de um rabino, e recolhidas pelo Talmud: “Dizia R. Jeremias, chamado Simão, filho de Jochai: Eu posso compensar os pecados do mundo todo, desde o dia em que nasci até hoje; e se meu filho Eleazar morresse, poderia livrar todos os homens que existiram no mundo, desde a sua criação até hoje. E se estivesse conosco Jotan, filho de Uzias, poderíamos fazer isso de todos os pecados, desde a criação do mundo até o seu final […]. Via os filhos do banquete divino, e eram poucos. Se fossem mil, meu filho e eu estaríamos entre eles; se fossem apenas dois, seríamos meu filho e eu”.⁽⁴⁾

Fariseus

Quem se deixa levar pelo orgulho não respeita limites

Uma vez perdida a humildade, pela vã complacência consigo, o orgulho no fariseu — como em qualquer caso — não mais respeitou nenhum limite. Ensoberbecido, colocou-se no centro do universo, exaltando as próprias qualidades. Não só desprezava as do próximo, como buscava exagerar os defeitos deste, sendo que às vezes o fariseu os possuía em maior grau.

Devido à sua incontida jactância, ele invariavelmente tinha razão em suas opiniões. Os fracassos sempre se davam pelo fato de não o terem procurado para consulta. Se muitos discordavam do fariseu, no fundo era porque — segundo ele — a sabedoria pertence a uma minoria seleta. Se todos eram unânimes com ele, sentia-se o dirigente. Se houvesse uma autoridade a qual ele devesse submissão, procuraria dominá-la; porém, como na maioria das vezes isto não era fácil, partia ele para a censura, a crítica e a sabotagem, acabando por ingressar pelas vias da desobediência.

Ademais, sempre se manifestava ingrato, pois qualquer benefício que se lhe fizesse seria um ato de pura justiça e, por isso, nunca agradecia.

Como todo orgulhoso, o fariseu, ao se constituir o foco das atenções, não tolerava quem não girasse ao seu redor e, tomado de inveja, fomentava discórdias sempre que as circunstâncias as exigissem, lançando mão, inescrupulosamente, de detrações, calúnias etc.

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⁽¹⁾ MONS. JOÃO SCOGNAMIGLIO CLÁ DIAS, EP, “O inédito dos Evangelhos”, Libreria Editrice Vaticana, 2012, Vol. 6, p. 427-429.

⁽²⁾ SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.161, a.1, ad 3.

⁽³⁾ Idem, a.2.

⁽⁴⁾ TRACT SUCCAH, c.IV. In: THE BABYLONIAN TALMUD. Tracts Betzah, Succah and Moed Katan. Trad. Michael Levi Rodkinson. New York: New Talmud Publishing,1899, p.67-68.

Maurílio Fiuza

Perfeita essa descrição que Monsenhor João Clá faz da psicologia do fariseu e tão carregada de ensinamentos para nos auxiliar em nossa vida espiritual!

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