Onde encontrar Deus

A plateia tinha razão para estar num “suspense”: o famoso violinista (*) executava com maestria uma difícil partitura e já havia arrebentado a primeira e segunda cordas do violino. Apesar disso, o músico continuava a tocar com apenas duas das cordas. Mas essa também arrebentou…

Com uma só corda, ele concluiu a música na perfeição.

Aplausos — bem merecidos —, vivas e brados ecoaram pelo teatro. Esse fato ficou famoso na história da música, pois, com o mínimo de recursos o artista soubera executar perfeitamente a partitura.

A Igreja comemora um Santo que, por assim dizer, foi violino com uma corda só: São João Vianney — conhecido também como o Cura d’Ars. Mas há um “detalhe”: o violinista era o próprio Deus…

      São João Vianney cura uma criança

João Maria Vianney nasceu na França numa época conturbada pela Revolução que viria a causar cerca de duzentos mil mortos, a começar pelo Rei Luís XVI, pela Rainha Maria Antonieta e milhares de nobres. Esta Revolução reservava, porém, o maior de seus ódios contra a Igreja Católica, à qual perseguiu, guilhotinou centenas de Sacerdotes, destruiu ou saqueou inúmeras igrejas, muitas delas verdadeiras obras de arte.

Passado o primeiro vagalhão dessa tormenta, certa “paz” se estabeleceu: Napoleão auto proclamou-se imperador e necessitava de soldados para espalhar por toda Europa os malefícios que haviam se abatido sobre a França.

Nessa época João Vianney é convocado para o exército, mas conseguiu livrar-se. Filho de uma família pobre, porém de sólida formação religiosa, João aprendera a praticar as virtudes desde pequeno. Uma coisa, porém, fazia dele, como dizíamos, o “violino de uma só corda”: era pouco inteligente, tinha extrema dificuldade em aprender, a tal ponto que passava “raspando” nos vários anos do seminário. Mas a sua prática exímia das virtudes levou os superiores a admiti-lo ao sacerdócio, pois “precisamos de virtudes, mais que do saber”, que foi o argumento decisivo do Bispo diocesano.

             Igreja paroquial de Ars

Foi então enviado para a minúscula cidade de Ars, cujos habitantes se davam a inúmeros vícios: bebedeira, blasfêmia, trabalho aos domingos, frequência dos inúmeros cabarés, etc. O Padre Vianney dizia mesmo: “Neste meio, tenho medo até de me perder”

Sua vida de piedade, em especial a grande devoção à Santíssima Virgem, penitências frequentes e seu zelo pela conversão do povo a ele confiado, o mantiveram não só firme nas virtudes, mas no progresso nelas.

Desse modo dentro de algum tempo tinha trazido considerável parcela da população de volta à prática dos mandamentos e sua fama de santidade e até de milagres chegou longe.

O afluxo de peregrinos aumentou a tal ponto que uma linha de estrada de ferro foi construída até Ars. Isso numa época em que esse meio de transporte ainda não atendia muitas das cidades francesas importantes.

Chegava a passar doze a dezoito horas no confessionário, reconciliando as almas com Deus.

Um fato mostra a que ponto a virtude, a santidade, transpareciam em sua pessoa.

Certo advogado de Paris — apesar de longe, até lá tinha chegado a fama do santo — quis confirmar com os próprios olhos o que ouvia a propósito do Cura d’Ars. [Cura é sinônimo de Pároco ou vigário].

Dirigiu-se à longínqua Ars, mas devido à precariedade dos meios de transporte, embora tivesse programado chegar de modo a assistir a Missa celebrada pelo santo, chegou apenas no momento em que este dava a bênção final. Transparecia no sacerdote uma tal santidade, que o visitante deu-se por satisfeito e declarou não precisar ver nem ouvir mais nada: vira realmente um santo.

De volta a Paris, ao lhe perguntarem o que vira em Ars, respondeu:

Vi Deus num homem!

Ele vira o “violino de uma só corda”, mas no qual tocava o Divino Artista. Razão pela qual a Igreja o declarou patrono dos sacerdotes, especialmente dos Párocos.

(*) Niccolo Paganini, nascido na Itália (1782 – 1840).

Ilustrações: Arautos do Evangelho, Gaudium Press, acnsf, wpress