O que levaremos para a eternidade

No princípio, Deus criou os Céus e a Terra” (Gn 1, 1). Os dois primeiros capítulos do Gênesis nos descrevem com luxo de detalhes o paternal esmero com o qual o Criador procedeu ao realizar sua obra, num prodígio de bondade e de perfeição, que é manifestação de sua sabedoria infinita: “Quão variadas são as vossas obras! Feitas, todas, com sabedoria” (Sl 103, 24).

Esta magnífica ordem criada, reflexo da ordem incriada (cf. Rm 1, 20), obedece a um belíssimo projeto para cuja realização deve cooperar todo ser (cf. Sb 1, 14), pois tudo quanto existe é destinado por Deus a determinado fim (cf. São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q.2, a.3).

Como píncaro das criaturas materiais, o homem é chamado a colaborar com isto de modo especialíssimo e ainda mais perfeito: cada um tem uma missão única e irrepetível. Seu autêntico êxito na vida consiste em tê-la cumprido com toda perfeição, como o Apóstolo: esquecido de todo o resto, corria para alcançar a meta (cf. Fl 3, 12‑14).

Assim, o maior obstáculo para a plena realização do plano de Deus a nosso próprio respeito consiste na falta de seriedade. Nos dias de hoje, em que tanto se prezam os gozos da vida e os prazeres terrenos, e o costume de rir a toda hora e a todo propósito tornou-se um verdadeiro vício, muito pouco lugar ainda resta para a seriedade.

A prática desta esplêndida virtude, tão desprezada nos tempos modernos, não consiste em ostentar carranca ou vestir trajes de luto… Filha da lógica, do método e da coerência, a seriedade gera a apetência estável por aquilo que há de mais sublime.

O olhar do homem sério não só analisa quanto tem diante dos olhos, mas abrange com sua reflexão a realidade total, e adquire o hábito de procurar conhecer sempre o lado profundo das coisas e sua ligação com um último fim. Conformando com a realidade seu pensamento, sua conduta e seus afetos, este varão chega às últimas consequências: ama o bem, e o serve; odeia o mal, e o combate. Numa e noutra situação, mantém sua alma em estado contínuo de vigilância.

Consequentemente, a seriedade é de tal modo condição para uma entrega frutuosa que, onde há seriedade, há entrega; onde não há seriedade não há entrega profunda, duradoura, real.

Neste Advento, Nosso Senhor Jesus Cristo, supremo modelo desta virtude, nos interpela sobre o grau de entrega de nossa vida nas mãos de Deus. Pois esta, autêntico fruto de caridade que Ele espera de nós, é a única e verdadeira bagagem que levaremos para a eternidade.

 

(Reproduzido da revista “Arautos do Evangelho”, nº 159, março de 2015, p. 5. Para acessar a revista Arautos do Evangelho do corrente mês clique aqui )

 

Ilustrações:  Arautos do Evangelho, brfreepickcom

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