O “estranho” Sinal da Cruz

Igreja da Transfiguração – Rito Ucraniano-Católico

Dias atrás recebi aqui na casa dos Arautos do Evangelho a visita de um amigo de longa data. Conversamos longamente e de maneira muito animada. De repente ele me disse baixinho, como se fosse algo preocupante: “alguns Arautos jovens não fazem o Sinal da Cruz de modo correto”.

Achei estranho.

Lembrei-me então que ele conhecia pouco Ponta Grossa e a grande influência ucraniana na cidade.

A explicação para o fato é simples.

Muitos dos jovens que frequentam a casa dos Arautos pertencem ao Rito Ucraniano, um dos 13 ritos da Igreja Católica.

No Brasil, estamos acostumados quase exclusivamente ao rito Romano, que é aliás o rito mais usado pela Santa Igreja em todo o mundo. Mas há outros treze ritos espalhados pelo mundo, todos eles em plena união ao Papa, o chefe visível da Igreja. Quando em algum lugar forma-se uma ponderável colônia de pessoas vindas de outros ritos, a Igreja maternalmente estimula a continuarem no seu rito de origem, ao qual estão acostumados a séculos, às vezes a milênios como é o caso do rito Sírio-malabar deixado pelo Apóstolo São Tomé quando de sua evangelização na Índia.

A Igreja Católica — católico significa universal — é uma só em todo o mundo, professa a mesma fé e obedece ao Sucessor de São Pedro, o Papa. Como Mãe amorosa, a Igreja favorece os ritos locais: Melquita, Bizantino, Antioquino, Alexandrino, Caldeu, Sírio-malabar, Ucraniano, Armênio etc. Em cada um deles, a Igreja mantém as tradições e costumes de cada povo, todos confiados ao primado pastoral do Pontífice Romano, o Papa.

Imagem contendo o corpo incorrupto de Santa Cecilia
Permanece sob o altar no qual a Missa é celebrada
Catacumbas – Roma

No Rito Romano, por exemplo, a Santa Missa tem suas origens nos tempos das catacumbas. As velas do altar são uma delas, pois iluminavam a cerimônia na penumbra. As relíquias debaixo do altar também: os fiéis dos primórdios da Igreja punham os restos mortais daqueles que haviam sido martirizados debaixo do altar.

O Rito ucraniano possui simbolismos na celebração da Eucaristia, denominada de Divina Liturgia. No decorrer de mil anos de Cristianismo na Ucrânia, passaram assimilaram as formas do rito bizantino, muito próximo geograficamente. Daí procedem muitos costumes ucranianos: festas, canções e orações, maneira de construir, pintar e ornamentar igrejas, artesanato em geral, e muitas outras peculiaridades.

Altar da Basílica de Nossa Senhora do Rosário
no Seminário dos Arautos do Evangelho
(Sob o altar estão as relíquias dos Santos de cada dia do ano)

Uma das peculiaridades, muito impregnadas de simbolismo é o Sinal da Cruz do rito ucraniano: é feito juntando-se o polegar e os dois dedos vizinhos, formando assim três, em sinal de crerem na Santíssima Trindade. Outro detalhe: é feito do ombro direito para o esquerdo simbolizando a fidelidade ao Papa, pois para quem está na Ucrânia, Roma fica no Ocidente.

O nosso amigo compreendeu então: não era algo estranho o modo dos jovens habituados ao rito ucraniano fazerem o Sinal da Cruz desse modo.